Há dias, no comboio entre a Amadora e Entrecampos, dei por mim a olhar para as mesmas caras de sempre. Não as conheço. Nunca lhes falei. Mas reconheço-as. Reconheço o homem que adormece encostado à janela porque já saiu de casa a dever descanso ao corpo. Reconheço a mulher que aproveita a viagem para responder a emails antes de começar o dia.
Creio que nenhuma destas pessoas vive obcecada com o futuro da direita portuguesa. Nenhuma perde tempo a discutir federações partidárias, reorganizações estratégicas ou geometrias parlamentares. Estão ocupadas com assuntos mais exigentes. Trabalhar. Criar filhos. Pagar contas. Chegar ao fim do mês sem sobressaltos. Construir uma vida que justifique o esforço que fazem todos os dias.
Talvez seja por isso que nunca percebi o fascínio de alguns comentadores pela concentração política. Quem vive nos subúrbios aprende cedo que a concorrência faz parte da vida. O café da esquina sabe-o. A papelaria sabe-o. O restaurante sabe-o. Até o barbeiro sabe-o. Se aparece alguém melhor, tens de melhorar também. Não pedes uma fusão ao concorrente da rua ao lado.
No país político, a conversa é muitas vezes diferente
A concorrência é celebrada em teoria e combatida na prática. Defende-se a pluralidade desde que não altere os equilíbrios existentes. Fala-se de diversidade desde que ela permaneça dentro dos limites considerados aceitáveis. A inovação é elogiada até ao momento em que ameaça quem já lá estava.
Talvez por isso me intrigue tanto a facilidade com que uma parte do comentário político português olha para novos projetos políticos como se fossem anomalias temporárias. Ainda nem uma década passou desde a entrada da Iniciativa Liberal na Assembleia da República e já surgem regularmente teses sobre a sua absorção, integração ou diluição em estruturas maiores. Como se a existência autónoma de um partido liberal continuasse a ser encarada por alguns como um acidente da história e não como uma escolha democrática de milhares de eleitores.
O mais curioso nestas conversas não é a proposta em si. É a tentativa persistente de transformar uma opinião numa inevitabilidade. Primeiro aparece um comentário. Depois um artigo. Segue-se uma entrevista, um painel de televisão, uma análise de jornal. Ao fim de algum tempo, aquilo que começou por ser uma preferência pessoal já é apresentado como uma conclusão lógica, quase como uma lei da física política que todos os outros deveriam aceitar sem grande discussão.
Confesso que estas conversas me fazem sorrir porque já as ouvi antes
Nas últimas eleições autárquicas da Amadora fui abordado para discutir uma eventual coligação. A conversa durou pouco. Não por divergências ideológicas profundas nem por incompatibilidades programáticas insanáveis. Terminou porque, a certa altura, ficou evidente que havia quem confundisse negociação com submissão. A frase que melhor resume esse momento continua gravada na minha memória: “Vocês são como o CDS, querem tudo. Vão para o fim da lista porque não valem nada.”
Meses depois, o PSD perdeu a Câmara Municipal da Amadora por cerca de dois mil votos. A Iniciativa Liberal teve mais de dois mil e quatrocentos.
Na altura achei a frase arrogante. Hoje acho-a reveladora.
Porque traduz uma forma de olhar para a política que continua muito presente em Portugal. A ideia de que há partidos que existem por direito próprio e outros que existem por concessão. A ideia de que o espaço político pertence a quem lá chegou primeiro. A ideia de que o eleitor existe para confirmar hierarquias e não para as desafiar.
Talvez por isso olhe com tanta desconfiança para estes exercícios de reorganização partidária, que surgem sempre que os velhos equilíbrios tremem. No fundo, não é uma conversa sobre ideias. É uma disputa por território. A história mostra-nos que quem acredita verdadeiramente nas suas ideias procura conquistar eleitores; quem não acredita nelas, prefere eliminar a concorrência.
Há dias reli uma reflexão de Cavaco Silva sobre a reforma do Estado e o poder dos burocratas no Observador, onde citava James Buchanan, que se limitou a recordar uma evidência que muitos preferem ignorar: os partidos são feitos de seres humanos. Procuram influência, defendem espaço e raramente apreciam concorrência. Nada de escandaloso. Escandaloso seria fingir o contrário.
É precisamente por sabermos isso que a concorrência é tão importante. Não porque os seres humanos sejam perfeitos. Mas porque não são. Porque a concorrência limita o poder. Obriga à prestação de contas. Impede acomodações excessivas. Cria incentivos para fazer melhor.
É verdade na economia.
É verdade na sociedade.
E também é verdade na política.
A democracia não fica mais forte quando há menos escolhas. Fica mais forte quando os cidadãos podem comparar projetos diferentes e decidir livremente qual deles merece a sua confiança.
O que realmente me preocupa não é a fusão de partidos. É a cultura que está por trás dela
A ideia de que a estabilidade depende da redução da concorrência. A convicção de que os problemas se resolvem concentrando poder. A tentação permanente de arrumar o pluralismo para tornar o sistema mais confortável para quem já ocupa espaço.
Foi essa lógica que durante décadas ajudou a criar um país excessivamente dependente do Estado, desconfiado da sociedade civil e pouco habituado a premiar a iniciativa. Um país onde demasiadas vezes se protege quem já está instalado e se olha com suspeita para quem tenta abrir caminho.
Mas a história mostra precisamente o contrário. As sociedades mais dinâmicas são aquelas que promovem a concorrência, incentivam a iniciativa e aceitam a mudança. Não porque a mudança seja sempre boa. Mas porque sabem que o conforto das rotinas é muitas vezes o primeiro passo para a estagnação.
Quando voltar a entrar naquele comboio, devo encontrar as mesmas pessoas. O homem encostado à janela. A mulher que responde a emails antes das oito.
Nenhum deles me perguntará pela próxima fusão partidária.
E, sinceramente, ainda bem.
Publicado no Observador a 08 de junho de 2026