Há uma tentação recorrente em Portugal: a de transformar tudo em propriedade de alguém.
A cultura, a memória, a história, até a própria democracia.
Há sempre quem se ache dono.
Donos do que devemos ler.
Donos do que devemos lembrar.
Donos do que devemos celebrar.
E é precisamente contra isso que Abril continua a fazer sentido.
Nem a cultura tem dono
O debate sobre a eventual retirada de José Saramago como leitura obrigatória no 12.º ano é revelador.
Não porque Saramago não seja importante. É!
Mas porque a discussão nunca é sobre literatura. É sobre controlo.
A ideia de que o Estado deve definir, de forma centralizada, o que todos os alunos devem ler parte de um pressuposto errado: o de que existe uma cultura oficial.
Não existe.
Existe cultura viva. Contextual. Plural.
A cultura portuguesa nunca foi uniforme.
Sempre foi confronto, diversidade, liberdade.
Abre a porta a maior flexibilidade e diversidade de autores, precisamente porque o problema não é a falta de um nome obrigatório, é o facto de muitos alunos simplesmente não lerem.
E isso não se resolve com imposição.
São as escolas, conhecendo o seu contexto social, cultural e humano, que devem escolher os autores que melhor despertam o gosto pela leitura.
Forçar Saramago não cria leitores.
Criar liberdade pode.
Nos meus tempos de escola tive uma professora de Português durante três anos seguidos. Inspiradora, como todos os bons professores, não aqueles de cartilha na mão a debitar matéria sem alma nem paixão. Esses são proletários do ensino, não professores.
Tinha uma lista de autores que sugeria como ponto de partida, e isso é que fazia a diferença.
Mas também espaço para irmos mais longe, para escolhermos, para propor.
Porque no final de cada período o que importava não era cumprir um programa.
Eram as competências adquiridas: interpretação, análise, pensamento crítico.
E, acima de tudo, perceber que tínhamos gostado da experiência de mergulhar nas palavras que outros escreveram.
Quem insiste em transformar autores em dogmas não está a defender a cultura.
Está a tentar controlá-la.
A memória também não tem dono
Curiosamente, os mesmos que querem controlar o que se lê muitas vezes esquecem-se do essencial: preservar o que já foi escrito.
O debate sobre a preservação digital, como no caso dos blogues do SAPO, expõe outra fragilidade: a nossa memória coletiva continua dependente do acaso tecnológico.
E aqui, sim, há uma função clara do Estado.
Portugal tem uma das instituições mais antigas de preservação documental do mundo, a Torre do Tombo, com mais de 600 anos de história.
Hoje, já existem milhões de documentos acessíveis online através de plataformas como o Digitarq.
Mas isso não chega.
A memória digital cresce todos os dias, jornais, blogues, sites, pensamento político, debate público.
Se não for preservada, desaparece.
E um país sem memória não é livre.
É manipulável.
A proposta de uma “Torre do Tombo digital” não é uma contradição liberal.
É uma obrigação de qualquer Estado que se leve a sério.
Preservar não é controlar.
É garantir acesso.
Garantir que ninguém pode apagar o passado, nem reescrevê-lo à medida das conveniências do presente.
Abril não foi para trocar donos
O problema nunca foi o Estado existir.
O problema é quando alguém o usa para mandar na cultura, na memória e na liberdade dos outros.
Abril não substituiu um dono por outro.
Acabou com a ideia de que o país tem dono.
Portugal não pertence a partidos.
Não pertence a elites culturais.
Não pertence a quem grita mais alto.
Portugal precisa de deixar de ter donos.